Publicado por: Nathan | Maio 24, 2009

Death Note

Numa aula de português, quando o professor apresentava alternativas para os vestibulandos informarem-se  sem colocar em cheque os horários de estudo, foi proposto que os alunos viessem até o colégio com seus aparelhos de som sintonizando frequências de noticiários, e num plano até mais extrapolador, que escutassem as notícias no ponto de ônibus e no trajeto veicular até suas casas. Essa última sugestão foi acolhida com uma uníssona ironia dos estudantes [éééé!], que obviamente viram as possibilidades de um assalto no momento em que estariam ostentando seus aparelhinhos de som no transporte público. O professor, com certo ar de indignação, pronuncia: “isso porque Curitiba é considerada uma cidade de primeiro mundo!”.

Por quanto tempo ficaremos na mira dos fora da lei? Teremos que nos privar do prazer e da necessidade de usufruir de nossos bens pessoais pelo medo perdê-los? Estamos perdendo nossa liberdade em detrimento dos Outros. E o pior, é que esses Outros são sujos, corruptos, falsos. O mundo está cheio de falhas, e embora na nossa realidade tenhamos que aceitá-las concomitantemente, é plausível alguns momentos de delírio para refletir sobre o que faríamos se em nossas mãos fosse depositada a oportunidade de fazer a justiça, de decidir quem deve e quem não deve ser punido. Tenho certeza que muitas pessoas numa ocasião como essa não deixariam escapar a oportunidade de viver melhor, de sacrificar seu tempo e seu destino para fazer o bem e livrar o mundo das impurezas que o corrompem.

É nesse contexto que se insere a saga de Death Note. Pode parecer insano fazer dois parágrafos repletos de aprofundamentos tendenciosos para acabar falando de um anime japonês recheado da mais pura ficção, mas por trás de monstros e cadernos malignos há uma concepção bastante crítica das reflexões que propus à pouco no texto. A série conta com 37 episódios embalsamados em ação e aventura, num jogo de estratégias entre Raito Yagami, sagaz e intelectual estudante que encontrou um caderno dotado do poder de tirar a vida da pessoa cujo nome nele fosse escrito (desde que o rosto fosse conhecido pelo realizador da ação) e o misterioso L, força maior de inteligência japonesa. Raito, ao ter a posse do death note, a vê como oportunidade de fazer justiça com as próprias mãos, condenando todos os criminosos noticiados na TV a ataques cardíacos, aspirando ser o “deus do novo mundo”.

death-note1É um desejo relativamente comum, como já foi discutido acima, se por outro ponto de vista não significasse a obstrução de um direito básico do ser humano: o direito à vida. Chega-se ao ponto em que o certo e o errado se fundem, num misto no qual não é possível saber quem é que faz a justiça na história: se é Raito – nessa altura conhecido em todo mundo pelo codinome Kira – ou se é a polícia, que caça o assassino dos milhares de assassinos. O protagonista torna-se um ícone por vezes malígno ao abusar dos meios mais ilícitos possíveis para alcançar seus objetivos, e, na medida em que vai limpando a sujeira do planeta, ganha opositores e seguidores, alguns até fanáticos pelo seu trabalho, endeusando-o.

Death Note retrata bem e eterna oposição entre o bem e o mal, ambos casados na entidade de um homem que deseja benfeitorias no lugar onde vive, que se nutre da força de vontade de criar um mundo livre de criminalidades, mesmo que através da coerção que faz com os bandidos ao puni-los com a mais severa das sentenças. Dentro disso, sempre prevalecerá a dualidade de intenções, na qual o discernimento entre punir os criminosos e tirar a vida de seres humanos fica na visão de quem tem o poder de praticar essas ações.

Saindo do plano surrealista do anime japonês, fica um gostinho de exceder a razão e corromper-se em avaria de quem já é corrompido, embora seja eticamente errado. Isso acontece porque estamos fartos de viver a mercê de inseguranças e quando nos deparamos com a chance de fazer valer toda essa indignação ultrapassamos os limites da própria apreensão do certo e do errado, pois o que interessa é livrar-se do que consideramos ruim para nós mesmos e para as outras pessoas que enxergamos como “do bem”. Tanto faz se para muitos você seria visto como um assassino, desde que para você a coisa certa estivesse sendo feita.

Nathan M. Catolino

Obs.: Deixo abaixo um dos sites difusores de animes como o Death Note, inclusive o próprio, para os interessados em ver com os próprios olhos toda dose de estratégia que compõe o pensamento de Kira na sua trajetória a “deus do novo mundo”. Recomendo. Vale a pena “perder” algumas horas para ter o prazer de assistir a uma história tao envolvente quando à do caderno que mata pessoas.

http://www.animeshade.com/


Respostas

  1. É… o poder de julgar seria algo excelente, imagine só poder eliminar todos os que não prestam: políticos corruptos, ladrões ‘psicopatas’, injustos, corrompidos, entre outros…

    Porém, é a velha questão né:

    “Sed quis custodiet ipsos custodes?” – Iuvenalis

    Ou seja, “Quem guardará os guardiões?”. Quem julgaria a maneira como estamos julgando? Além disso, quem disse que somos melhores que os outros para poder tratar-lhes em tal situação?

    Muito interessante essa história, e se algum dia, depois de ter passado por essa ¨#@$& de vestibular, pretendo assistir… mas com certeza no mundo real isso seria um absurdo, e a justiça mais uma vez mostraria sua incompetência. :D

    Abraço


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