Engolindo a Lei Seca
Engolida, praticamente digerida, quase saindo pela porta de trás. A Lei Seca, que tanto apavorou e polemizou o segundo semestre do ano passado, está caindo no esquecimento. E não duvido nada de que seja arquivada na memória da maioria da população antes mesmo de fazer aniversário. Tanto que você, leitor, se já não a infringiu, certamente já presenciou uma cena dessas.
Vários prováveis – e até evidentes – motivos demonstram falhas na Lei Seca, a começar por ela mesma. A medida implica que nenhum motorista poderá dirigir após consumir uma gota se quer de álcool, um adorável bombom de licor já é o considerado suficiente para que um indivíduo, talvez voltando pra casa depois de um xadrez com os amigos e uma doce sobremesa, seja devidamente multado, acusado de “motorista alcoolizado” por um aparelho que tem uma margem de erro próxima aos limites. Isso mesmo, o bafômetro (instrumento que calcula a quantidade de álcool por mililitro de sangue no corpo, usado pelos policiais para multar ou prender motoristas bêbados nas blitz) contém uma margem de erro próxima aos 0,2mg/ml de sangue, o que torna até mesmo injustas algumas medições.
Outro ponto importante é a implantação da Lei no país. Tudo fogo de palha. No começo a polícia estava pelas ruas, com ou sem bafômetro, para intimidar aqueles que fingiam não saber das novas regras. O número de acidentes causados por pessoas alcoolizadas no volante diminuiu consideravelmente, já em agosto passado. Mas, infelizmente, não foi isso que aconteceu nos meses seguintes, com o tempo, tudo volta ao normal. Todo mundo sacou que a quantidade de bafômetros disponíveis era mínima, já que o governo não liberou muitos, e o alvoroço foi passando, fazendo a happy hour voltar às normalidades. Hoje, o número de pessoas preocupadas em pegar um taxi depois de sair às três da manhã de uma balada é consideravelmente pequena. Quais são as probabilidades de topar com a polícia, ser parado e contar com o azar deles possuírem um bafômetro em mãos? Não preciso nem dizer, se contarmos a quantidade de boates que tem numa cidade grande, onde o fisco é mais provável. Talvez por isso, só em Curitiba, 42% dos motoristas têm a cara de pau de afirmar que nunca levou a sério essa lei.
Unir o útil ao agradável é difícil numa situação dessas. Porém, apesar das inúmeras falhas da Lei Seca, todos nós temos consciência – eu espero – das consequências possíveis de sair dirigindo por aí alcoolizado, fora do controle. Os noticiários provam isso todos os dias. É excessivamente chato sair de uma balada ou de um barzinho e ter que largar o carro para pedir outro meio de transporte até sua casa, ainda assim, eu preferiria sair de taxi a sair de ambulância desse lugar. Acredito que compense seguir certas regras. Uma lei não é aprovada a toa e, sabendo que traz benefícios visíveis à toda comunidade, é importante que cada um cumpra seu papel de cidadão ao segui-la. Querendo ou não, essa Lei Seca que ameaça cair no esquecimento precisa ser engolida e absorvida.
Nathan M. Catolino

Nossa, essa da lei seca ficou muito boa! E tá difícil, apesar da burocracia desse nosso páis, tentar adequar-se de uma vez por todas. O que resta a cada indivíduo é que ele faça sua parte bem feita, ainda assim correndo um risco (in)evitável.
Suas críticas tem toda razão uma vez que realmente a questão da Lei Seca foi totalmente esquecida. Adorei o texto!
Beijos